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Pedro Vítor de Carvalho
15 May 2012 @ 04:00 am
Minha vontade mesmo era te ligar agora. Agora mesmo. Não que eu tenha algo de extraordinário pra te falar, mas ouvir sua voz está em um dos motivos mais pertinentes que consegui pensar. Eu sei que é bobo eu pensar na possibilidade, mesmo tendo certeza que ela é remota. Confesso, porém, que essa é a vontade mais crua que sinto agora. De te falar um "oi" sem graça e perguntar com vergonha se te atrapalhei no sono e você dizer que não tem problema. De termos aqueles momentos de silêncio durante a ligação, de quando tudo é falado, mas não se quer desligar, não se quer separar. Ouvir sua respiração contínue te imaginando deitado em sua cama, perdendo suas preciosas horas de sono, mas dedicando-as a mim mesmo sem merecer. Te falar o que fiz durante o dia, mesmo não sendo nada tão relevante quanto a vontade de continuar contigo mesmo que te ouvindo, te imaginando perto, me sentindo protegido. Escutar sua voz arrependida ao pedir desculpas, sua voz tímida ao se redimir, sua voz cortada quando veio o descontrole. De sentir sua insegurança inundando suas palavras gaguejadas, de ouvir seu choro calado por coisas que talvez nem merecesse. De responder como eu estou ou de ficar horas tentando te explicar a mesma coisa. De desligar na sua cara querendo te ligar pra pedir desculpas. Ouvir suas risadas calmas e sinceras, sua vontade de me manter envolvido, de me querer por perto. 

Eu sei que, hoje, esse já não é seu desejo mais. Não me importa. Minha vontade? Minha vontade mesmo era só de te ligar agora.
 
 
Listening to: Mogwai
 
 
Pedro Vítor de Carvalho
08 May 2012 @ 12:13 am
Ele fechou a janela cuidadosamente, mas não a travou com medo de quebrar, mas não tinha tanta certeza o quê. Jogou seu corpo para trás e caiu na cama por sorte. Ele sempre soube que não deveria ter aberto aquela caixa de lembranças. Olhar lá para fora e assistir os movimentos da Lua não traria ninguém de volta e ela também não estaria a olhando como desejava. Tudo tinha ido água abaixo. Há anos. Assim como suas lembranças. Mas aquela caixa de lembranças teve um efeito fênix em tudo. Como poderia voltar dessa forma? Ele se perguntava enquanto passava sua mão no peito como se tivesse prestes a ter um infarto ou algo parecido.

O quarto estava escuro, mas as imagens que ele via em sua frente eram bem nítidas e com cor suficiente. O filme do passado foi passando enquanto as lágrimas caiam, lentamente, fazendo caminho até ir ao encontro do lençol. A cada segundo que passava, a pressão no seu peito só aumentava e com certeza não era por conta do travesseiro que abraçava de forma, inclusive, agressiva. Era um longa de sorrisos que serviam como bisturis em dia de operação. Os beijos, os pedidos de perdão, os abraços eram como guilhotinas. Aquele olhar único que lhe desmanchava sem dó por dentro hoje já lhe custa uma boa noite de sono. Nada aliviava a sensação de ter seu peito rasgado vendo aquelas imagens tão perto e separadas por um abismo sem fim. Tudo beirava o absurdo, o fictício real, a dor física quase insuportável da forma mais literal possível.

A sensação era de alívio quando as imagens escureceram. Virou de lado e fechou os olhos. Sentiu as cobertas se mexendo e uma movimentação do seu lado. Tudo que pareceria preocupante tinha uma sensação boa, sabe se lá por quê. Segurou, então, nos braços dela que já o envolviam. Ela estava ali ao seu lado. Enconstar naquela pele era quase uma nirvana, uma bomba de nostalgia pura. Seus dedos se desvencilharam e começaram a percorrer pelo por todo peito dele, quase que dançando por todas suas curvas, da forma mais delicada possível. A tentativa de abrir os olhos foi interrompida pela pressão dos dedos dela sobre suas pálpebras. Ele poderia lutar contra isso, mas o perfume que veio com o movimento o acalmou. Era nítido que a saudade era tanta que agora o tempo já não importava, tudo seria feito do jeito mais lento e intenso possível. Seu sorriso era quase que reluzente em todo o quarto escuro, mas seus olhos fechados mostravam alívio e paciência. Alcançou seu cigarro e o isqueiro com os dedos e acendeu como já o faz com prática. Os tragos foram revezados, da mesma forma que o faziam quando estavam na cama. Os dedos se encostavam frequentemente. e o toque era orgástico. Comparável ao efeito de uma droga sensitiva qualquer. Há anos isso era somente utopia, uma história fechada e mal esquecida que ficara no passado. E agora era real, físico. Seus braços o envolviam e ele já se sentia protegido, sem medo, completamente entregue.  

Sua presença era quente, aconchegante. Mas tão quente ao ponto de queimar? Aquilo não estava normal.Abriu seus olhos gentilmente e tudo que viu a fumaça malemolente de seu cigarro. A frustração se concretizava no seu lençol cuidadosamente queimado pela brasa. As evidências de uma noite que nunca aconteceu estavam diante dele, mas o cheiro dela em seu ombro lhe davam a certeza de que as lembranças continuam mais vivas que nunca em sua cabeça.
 
 
Listening to: Portishead
 
 
Pedro Vítor de Carvalho
26 March 2012 @ 11:28 pm
Muitos julgam o vício. Argumentos embasados ou não, sempre julgam o vício. Não tô aqui pra levantar bandeira alguma, mas pra talvez defender a minha. Poderia citar as mais variadas drogas aqui, desde ilícitos até lícitos. Desde irracionais até racionais. Enquantos uns são viciados em cigarro, outros são viciados em pessoas. Felizmente sou viciado em cigarro. Não tenho apologia a nada, nem de longe esse é o motivo das tecladas. Mas sei que é muito mais do que porcentagem de substâncias tóxicas pra mim. É uma companhia. Talvez a melhor companhia. Talvez a única que consegue ler meus pensamentos. A única que me acalme. A única que me console. Ou até a única que me aguente. A fumaça? Talvez a companhia mais sociável que já tive. A mais animada. A mais envolvente. O lance etéreo é o único que consegue me aquecer... por dentro. Que passa pela minha boca, minha língua, meus lábios, e não me cobra nada amanhã. E a brasa? Ah, a brasa! Aquele calor dançando de forma malemolente por entre meus dedos frios. Aquela cor vibrante e hipnotizante que ilumina os espaços escuros do meu quarto. O sinalizador de que estamos a sos, eu e o cigarro. Aqui nesse quarto escuro. Onde ninguém chega até mim, nada me alcança. O cigarro é aquela companhia que te ensina, te instiga e intriga. Que te faz pensar, refletir. O amigo que te responde as perguntas. E te dá mais dúvidas,e mais respostas, e mais dúvidas... O amigo que te lembram que  avisa que você está sozinho e que ele é o único ali. Contigo. Sempre.

O amigo que te lembra que todos que você amou estão a uma esquina de você e as lembranças? As lembranças são só suas.
 
 
Pedro Vítor de Carvalho
22 December 2011 @ 05:53 am
2011  
Sempre tive a intenção de fazer esse texto. Pra falar um pouco sobre (tudo) o que esse ano significou pra mim. Inclusive tentei começar por várias vezes, em vão. Hoje eu percebo que a importância que 2010 teve, 2011 também tem, na mesma proporção. Quem diria que seria de formas diferentes. Hoje tenho 3 referências pra citar. O ontem (2010), o hoje (2011) e o amanhã (2012), em suas maiores características, e graças a Deus que eu as tenho. 2010 foi um ano de sorrisos, descobertas e paixão por um lado; incômodo, tensão e indiferença de outro; riscos, obstáculos e sucesso no último. Estamos falando da minha vida sentimental, social e profissional. Eu não tenho o que reclamar, é o que podemos chamar de época de ouro, apesar de os pesares. Foi um ano leve, em que tudo fluia, ano esse que eu pensava que sabia onde estava e onde estaria. Mas eu estava errado, como eu estava errado! Então 2010 terminou de forma cabulosa, os 3 pilares da minha vida se quebraram, e eu estava ali, em um mar turbulento sem nada que fluisse. Tava sendo afogado, aos poucos.

2011 chegou. Os pilares se inverteram. Senti que precisava criar algo pra dar minha força, minha energia e meus pensamentos. Minha vida profissional precisava ser aguçada. Criei um projeto, fui abraçado, apoiado, guiado. Minha vida social melhorou, aprendi e amadureci. Vi a diferença entre a tolerância e a falsidade. Aprendi a ter paciência. Aprendi que a vida não é da forma que eu quero, que eu penso ou que eu faço. Percebi que minha família era bem mais do que eu um dia imaginei. Tive paz de espírito nesse lado. Isso tudo pra poder compensar a sentimental. No começo de tudo já tinha percebido o peso que isso tinha na minha vida. Apesar de todos os outros 2 pilares estarem bastante sóbrios, o outro me deixava pra baixo. E durante boa parte do ano me senti como falado anteriormente: a cada mês que passava, era como se me afogasse mais, e que não teria mais jeito, não havia explicação, não havia remédio além do tempo que tantos falavam. E não é que esse desgraçado do tempo realmente é sábio? Quando fui perceber, existia a dor, mas ela já nem mais latejava. Depois até a dor sumiu, mas a cicatriz ainda estava lá. E assim fui indo, de degrau em degrau, bem devagarzinho, com bastante cautela. E nessa fase foi o momento em que eu percebi que, apesar de todos os vários pesares, eu estava andando sozinho, e isso bastava. Não tava me curando com nada, nem ninguém. Eu tirei um tempo pra mim, pra olhar pra dentro, pra cuidar das feridas, do meu jeito. E assim que percebi o quanto estava me conhecendo com isso. Sabendo dos meus limites, do que eu consigo, do que eu não sou capaz, até onde pude e posso ir. Percebi onde fui errado, percebi onde saí vitorioso, percebi que conto de fadas não existem e percebi que tudo é mais prático do que eu mesmo imaginava. Quanta ironia! Uma pessoa altamente racional dizendo que a vida era ainda mais racional do que se parecia. Fiz minhas besteiras, paguei a língua e paguei por isso com consequências bem piores, mas nunca descartáveis. Tudo foi válido, tudo me fez refletir sobre a história que tive e os absurdos que eu ainda acreditava. Me fez botar os pés no chão e perceber que eu tinha força pra andar sozinho sem ninguém me segurar. Ou melhor, sem ninguém pra eu me apoiar e depois simplesmente descartar quando eu perceber que seria em vão. Me fez perceber que esse pilar não era maior ou melhor que os outros. Me ajudou a me aproximar da minha familia, me desdobrar do trabalho. Percebi uma vida toda que eu não conhecia. Algo que me fez extremamente ocupado, de mente limpa, leve. Sempre soube (e disse pra quem quisesse ouvir) que 2011 seria um ano de transição. De um Pedro Vítor que achava que se conhecia, pra um extremamente mais maduro. De alguém que sorria sem motivos pra alguém que dá valor no que se sorri. Dessa vez aconteceu a mesma coisa, mas do contrário: meu 2011 começou chorando e terminou sorrindo. E não pretende parar tão rápido. 

2012 nem chegou, de fato. O que acontece é que eu sinto que 2012 já começou pra mim há quase 1 mês. As cores já mudaram, eu já sinto o vento de vida nova bater no meu rosto e movimentar meus cabelos. Hoje quando eu olho pra baixo vejo meus 3 pilares bem fortes. De um jeito que nunca esteve. Nunca. E isso me fascina. Não sejamos injustos. Hoje quando olho pra trás vejo o quanto cresci, o quão profissional tornei. O quanto viajei pra tocar, desafiei concorrentes e venci, quantas oportunidades tive, quantas pessoas conheci, quantas histórias tive e ainda vou ter. É por isso que disse, lá no começo, que a proporção é a mesma de 2010. Voltemos a ser racionais: a lógica real é que meu 2012 inspire e expire bons ares. Só que dessa vez, de uma forma bem mais intensa que 2010. Isso tudo por um simples motivo: hoje eu tenho um suporte bem feito. Mas, acima de tudo, quem está em cima dos 3 pilares é uma cabeça de alguém bem mais consciente, maduro e, principalmente, mais forte.

Feliz 2012 pra todos nós!
 
 
Listening to: Etta James
 
 
Pedro Vítor de Carvalho
12 September 2011 @ 05:46 am
Às vezes tenho impressão que esse é o ano que eu... sinto mais as coisas boas e ruins, que eu me entendo mais como eu funciono, até onde eu posso ir ou até onde não. Meu melhor ano foi de longe 2010. Tudo fluia, eu consegui ir, como se alguém acompanhasse a inércia de uma escada-rolante. Tinha um Pedro que sempre sorria de orelha à orelha, que deitava a cabeça no travesseiro e percebia tudo leve. Esse ano está sendo como se eu tivesse sido expulso do movimento e tivesse que aprender a andar sozinho. Esperar bastante pra poder chegar onde eu quero, até andar na velocidade que eu espero. Meio que sentindo a vida mais... adulta, mais lógica, racional. Com consequencias e milhões de dificuldades. Eu não sei se é o que todo mundo sente, ou sentiu, ou ainda vai sentir, ou se comigo a intensidade é maior, enfim, mas é como se eu visse as coisas hoje de uma forma que eu sabia que eram antigamente mas tinha medo de confirmar. Sinto que começo a ver agora as coisas como elas realmente são. Que dou valor em dobro em algo que vai me fazer sorrir de orelha à orelha. Que eu aprendo com meus erros, com os erros dos outros, e me torno mais forte quando mais fraco. Que em 2011 está sendo um ano de transição, entre o paraíso e a vida real. Fui desacostumado e poderia ser injusto e citar uma série de reclamações que não me levariam a lugar nenhum. Ou posso torcer para que 2013 seja o início de uma era consciente em que um Pedro mais forte vai construir uma vida bem mais consolidada. E nunca mais cair da escada-rolante.

 
 
Listening to: Paradise, Coldplay